Perry Anderson - Balanço do Neoliberalismo
O neoliberalismo surge logo após a Segunda Guerra Mundial como uma reação teórica e política veemente contra o Estado intervencionista e de bem-estar social. Seu marco inicial é a obra O Caminho da Servidão (1944), de Friedrich Hayek, que denunciava qualquer limitação dos mecanismos de mercado como uma ameaça à liberdade econômica e política, comparando a social-democracia ao desastre do nazismo. Em 1947, a fundação da Sociedade de Mont Pèlerin consolidou uma organização dedicada a combater o keynesianismo e preparar as bases de um capitalismo "duro e livre de regras".
Durante as décadas de 50 e 60, as ideias neoliberais permaneceram à margem devido à "era de ouro" do capitalismo. Contudo, a crise de 1973 permitiu que ganhassem terreno ao atribuírem a recessão ao poder excessivo dos sindicatos e aos gastos sociais "parasitários" do Estado, que teriam corroído os lucros e gerado inflação. O diagnóstico neoliberal propunha um Estado forte para romper o poder sindical e controlar a moeda, mas parco em gastos sociais. A estratégia incluía a restauração de uma taxa "natural" de desemprego (um exército de reserva para disciplinar o trabalho) e a redução de impostos sobre os mais ricos para dinamizar a economia através de uma "nova e saudável desigualdade".
A aplicação prática desse programa consolidou-se nos anos 80 com os governos de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos. Enquanto o modelo inglês foi o mais "puro", focando em privatizações massivas e cortes sociais, o modelo norte-americano utilizou um "keynesianismo militar disfarçado", gerando déficits enormes para financiar a corrida armamentista contra a União Soviética. Na Europa, mesmo governos de "esquerda" (os "euro-socialistas") acabaram por se render à ortodoxia neoliberal devido às pressões dos mercados financeiros internacionais.
Globalmente, o neoliberalismo expandiu-se em duas frentes principais:
- Leste Europeu: Após a queda do comunismo (1989-1991), surgiram "reformadores" ainda mais intransigentes que os ocidentais, implementando privatizações e terapias de choque brutais.
- América Latina: O continente foi palco da primeira experiência neoliberal sistemática no Chile de Pinochet, que demonstrou que a democracia não era um valor central para a doutrina se a "liberdade econômica" estivesse em jogo. Anderson destaca que a hiperinflação serviu, em países como Bolívia e Brasil, como um "equivalente funcional" à ditadura para condicionar o povo a aceitar medidas deflacionárias drásticas.
O balanço final da obra aponta resultados contraditórios:
- Econômico: O neoliberalismo fracassou em revitalizar o crescimento do capitalismo avançado; as taxas de investimento caíram porque a desregulamentação financeira favoreceu a inversão especulativa em detrimento da produtiva. Além disso, o peso do Estado não diminuiu significativamente devido aos custos com desemprego e previdência.
- Social: Teve êxito em seus objetivos de aumentar a desigualdade e derrotar o movimento sindical.
- Ideológico: Alcançou uma hegemonia sem precedentes, disseminando a ideia de que "não há alternativa" aos seus princípios, obrigando todos os espectros políticos a adaptarem-se às suas normas.
Embora estéril em termos de crescimento econômico, o neoliberalismo transformou o mundo à sua imagem através de um corpo doutrinário coerente e militante.
texto completo: https://www.unirio.br/unirio/cchs/ess/Members/giselle.souza/politica-social-ii/texto-1-balanco-do-neoliberalismo-anderson